O peso ambiental do concreto
A corrida para construir novos data centers voltados para a inteligência artificial vai exigir cerca de 2 milhões de toneladas de cimento até 2030. Se as empresas utilizarem concreto convencional nessas obras, as emissões de carbono podem chegar a 1,9 milhão de toneladas, o que equivale à poluição gerada por aproximadamente 415 mil carros a gasolina em um ano.
Os dados são de uma estimativa da organização ambiental RMI e indicam que o impacto do concreto nessas estruturas é comparável ao do aço. Chandler Randol, especialista da entidade, aponta que o cimento é o principal agente ligante do concreto e um grande emissor de gases de efeito estufa.
“O boom dos data centers está oferecendo uma oportunidade de avaliar, enfrentar e agir sobre os impactos de carbono do concreto. À medida que a infraestrutura de IA explode, a construção de data centers se acelera e traz consigo a demanda por concreto”
Afirmou Katherine Vaz Gomes, engenheira de descarbonização da consultoria Carbon Direct.
Big techs buscam alternativas
Grandes empresas de tecnologia já se movimentam para reduzir esse impacto através de acordos com fabricantes de concreto de baixo carbono. A Microsoft firmou um contrato com a Sublime Systems para comprar mais de 600 mil toneladas de cimento verde ao longo dos próximos anos, enquanto a Amazon fechou parcerias com a startup Brimstone e investiu na CarbonCure.
A Amazon também começou a usar concreto com menor pegada de carbono em obras na Virgínia e no Oregon. A empresa se uniu à Meta e à Prologis para criar uma aliança de compradores, com o objetivo de incentivar a produção desses materiais mais limpos.
“À medida que cresce a demanda por serviços de IA e computação em nuvem, estamos avançando na forma como projetamos, construímos e operamos nossos data centers e campi. Descarbonizar o ambiente construído é um elemento crucial nesse processo”
Disse Melanie Nakagawa, diretora de sustentabilidade da Microsoft.
Cortes de verba atrapalham o setor
Especialistas alertam que a tecnologia para produzir cimento verde já existe, mas ainda precisa de muito dinheiro para ganhar escala industrial. O setor esperava receber cerca de US$ 1,6 bilhão em apoio governamental nos Estados Unidos, mas o presidente Donald Trump retirou esses recursos no ano passado.
Os efeitos do corte já apareceram no mercado, com a startup Sublime demitindo 10% da equipe e suspendendo a construção de uma fábrica em Massachusetts. Christina Theodoridi, do Natural Resources Defense Council, explica que os contratos garantidos com data centers ajudam, mas o investimento público cancelado faria uma grande diferença para preparar a indústria.
Emissões que ficam para sempre
Existe uma diferença importante entre a poluição gerada pelo funcionamento dos computadores e a poluição da construção dos prédios. As emissões operacionais, causadas pelo consumo de energia, podem diminuir conforme a rede elétrica fica mais limpa, mas as emissões dos materiais de construção são definitivas.
Para cumprir metas climáticas, as empresas precisam resolver o problema do concreto antes mesmo de o primeiro servidor ser ligado. Chris Magwood, da RMI, destaca que as companhias já identificaram que o uso intensivo de concreto é um fator-chave que precisa ser enfrentado nas obras.

