O motivo real pelo qual as redes sociais pararam de dar importância aos likes

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Ilustração mostra corações e polegares para cima caindo, simbolizando a desvalorização dos likes nas redes sociais.

A era dourada dos “likes” nas redes sociais, que por anos serviram como a principal métrica de aprovação e popularidade, parece estar se dissolvendo. Em 2026, observamos uma mudança palpável na maneira como as grandes plataformas digitais, e até mesmo seus próprios criadores, estão reavaliando o papel dessas reações instantâneas. Não se trata de uma simples atualização de interface, mas sim de uma resposta estratégica e, em muitos aspectos, inevitável, a uma compreensão mais profunda do impacto psicológico dessas métricas e à crescente demanda por interações digitais mais autênticas e menos viciantes. 

O motivo real por trás dessa desvalorização é multifacetado, envolvendo a ciência do comportamento humano, o reconhecimento de vieses algorítmicos e um clamor global por um bem-estar digital que vá além da superficialidade.

Essa transição representa um reconhecimento crucial: o ciclo incessante de buscar aprovação quantificada através de curtidas não apenas fomentava um comportamento superficial, mas também ativava centros de recompensa no cérebro de uma maneira que podia levar a padrões de uso compulsivos, quase viciantes. Os likes, antes vistos como um termômetro infalível de sucesso e popularidade, revelaram-se uma ferramenta poderosa para prender a atenção do usuário, muitas vezes em detrimento da saúde mental e do aprofundamento das relações interpessoais genuínas. Agora, as plataformas buscam remodelar sua arquitetura, não para eliminar a conexão, mas para promover um engajamento mais significativo, incentivando os usuários a se concentrarem no conteúdo e na interação real, em vez de perseguir a efêmera validação numérica.

O fascínio dos likes e a ciência por trás do vício

Para realmente entender a complexidade por trás da despriorização dos likes, precisamos mergulhar na fascinante, e por vezes assustadora, ciência que sustentava seu poder. Desde meados da década de 2020, especialistas já alertavam para uma relação quase química entre a carência por likes e o vício, uma dinâmica que moldou o comportamento de milhões de usuários globalmente. 

Segundo Mitch Prinstein, diretor científico da Associação Americana de Psicologia (APA), o uso frequente de mídias sociais, com seu foco nas “curtidas” quantificadas e notificações constantes, ativa áreas específicas do cérebro. Essas regiões nos levam não apenas a desfrutar dessas interações digitais, mas a ansiar biologicamente por elas, um processo que ele compara à ativação cerebral associada ao vício em substâncias ilegais. É um alerta perturbador que sublinha a gravidade do problema.

Essa dinâmica é particularmente amplificada durante a adolescência, uma fase de intenso desenvolvimento cerebral. Prinstein explica que, entre os 10 e 12 anos de idade, o cérebro experimenta um aumento significativo na capacidade de receber sinais de dopamina e oxitocina, hormônios cruciais associados ao prazer, à recompensa e ao vínculo social. As redes sociais, com seu design engenhoso, capitalizam precisamente essa vulnerabilidade biológica, oferecendo uma plataforma aparentemente infinita para a busca incessante por atenção, visibilidade e um senso de pertencimento social, 24 horas por dia, 7 dias por semana. 

Carolina Vidal, professora assistente de psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, complementa que a maioria das redes sociais é intencionalmente projetada para promover a repetição do uso, e os likes, nesse contexto, funcionam como poderosas recompensas, semelhantes a incentivos financeiros ou validação social. Não é o ato de se conectar que é inerentemente problemático, mas a forma como essa conexão foi quantificada e incentivada ao ponto da compulsão. O “curtir” tornou-se, assim, um reforço comportamental quase automático, difícil de resistir.

A virada de chave: quando os próprios criadores questionam

O reconhecimento dos perigos inerentes à obsessão por likes não emergiu apenas de estudos acadêmicos ou da observação de especialistas em saúde mental; ele brotou também de dentro da própria indústria tecnológica, dos que outrora foram os arquitetos dessas métricas. Justin Rosenstein, uma figura proeminente e co-criador do icônico botão “curtir” do Facebook, é um dos exemplos mais contundentes dessa virada de perspectiva. 

Anos após sua criação, Rosenstein tomou a decisão radical de remover todas as redes sociais, aplicativos de e-mail e notícias de seu próprio telefone. Sua motivação era profundamente pessoal e, ao mesmo tempo, universal: ele percebeu que as constantes notificações e a busca implícita por validação através de likes o afastavam das relações na vida real, impedindo-o de ter uma “presença” plena e consciente no mundo offline.

Para Rosenstein, a tecnologia, em sua essência, deveria servir para nos auxiliar, prendendo nossa atenção apenas quando intencionalmente desejamos focar nela. Em todos os outros momentos, ela deveria permanecer discreta, fora do nosso caminho. Ele expressou que “curtir é uma emoção muito simples, uma reação muito simples para ser a única coisa a se basear nas redes”. Essa autocrítica vinda do próprio arquiteto de uma das métricas mais influentes das redes sociais ressoa profundamente. 

Ela sublinha a insuficiência do like como um medidor de valor e a urgência de conceber uma experiência online mais rica e significativa. A partir de então, a busca por um novo paradigma, que valorize conteúdos educativos, desafiadores e que realmente preencham o usuário, em vez de apenas o que é rapidamente “curtível”, tornou-se uma bandeira para muitos que, um dia, idealizaram as funções que hoje criticam. A reflexão sobre o que realmente significa “gastar bem o tempo” online é o cerne dessa nova perspectiva.

Atenção roubada vs. intenção consciente

A “consequência inesperada” que Justin Rosenstein descreve é a capacidade das redes sociais de capturar nossa atenção independentemente da nossa intenção, gerando um desequilíbrio profundo entre o que queremos fazer e o que acabamos fazendo. Quantas vezes nos encontramos em um ciclo de “rolar” infinitamente o feed, apenas para, 30 minutos depois, sentir que aquele tempo foi simplesmente jogado fora, um pedaço precioso do dia consumido sem propósito? 

Essa experiência é um indicativo claro da diferença crucial entre aplicativos que “roubam” nossa atenção – como as redes sociais, com seu fluxo interminável de estímulos e recompensas variáveis – e aqueles que usamos com um propósito claro, abandonando-os assim que a tarefa é concluída, como um aplicativo de mapas que nos leva ao destino ou uma ferramenta de meditação que nos ajuda a focar. A capacidade de ter atenção a essa distinção e fazer escolhas conscientes sobre como e onde direcionar nosso foco é fundamental para retomar o controle sobre nossas mentes e nosso tempo, desafiando a arquitetura persuasiva que nos impulsionava ao uso inconsciente.

Além do número: os impactos na saúde mental e nas interações reais

A obsessão contínua por likes, e o design que a incentivava, não apenas gerou uma “bolha” de conteúdo agradável e homogêneo, mas também catalisou uma série de impactos negativos substanciais na saúde mental e na qualidade das interações sociais. Paul Croarkin, psiquiatra infantil da Clínica Mayo, aponta um paradoxo preocupante: enquanto a mídia social abriu um universo de possibilidades, derrubando barreiras geográficas e permitindo conexões quase instantâneas, ela paradoxalmente também pode diminuir formas importantes de comunicação face a face. Essa redução nas interações presenciais, por sua vez, limita as oportunidades de estreitar laços significativos, contribuindo para um aumento no sentimento de solidão e, potencialmente, para o desenvolvimento de condições como depressão e outros problemas emocionais em populações vulneráveis. O que era para aproximar, em muitos casos, acabou afastando.

Mitch Prinstein, da APA, complementa essa visão, alertando que as redes sociais têm o poder de criar um universo paralelo, distanciando os usuários da vida real. Ele destaca a tendência perigosa de “acreditar que o que vemos é real, que todos os ‘likes’ representam o sentimento das pessoas e que os ‘assuntos atuais’ refletem o que a maioria das pessoas acredita”. No entanto, essa percepção é frequentemente uma ilusão cuidadosamente construída, e muitos, especialmente crianças e adolescentes, acabam moldando seu pensamento e suas ações com base nesse mundo virtual distorcido. 

Os likes, nesse contexto, não só contribuem para uma cultura de comparações incessantes e expectativas irreais, mas também podem “danificar discretamente a autoestima” de alguns usuários. As revelações de Frances Haugen, ex-gerente de produto do Facebook, trouxeram à tona documentos internos que demonstram o conhecimento da plataforma sobre o impacto negativo do Instagram na saúde mental e na imagem corporal de adolescentes, especialmente meninas. Essa dolorosa constatação escancarou a urgência de repensar a centralidade das métricas de vaidade, evidenciando que a empresa, em muitos casos, priorizou o lucro em detrimento do bem-estar de seus bilhões de usuários.

O que a despriorização dos likes significa para o futuro das redes?

A gradual, mas perceptível, decisão de diminuir a visibilidade dos likes ou, em alguns casos, removê-los completamente em certas plataformas, representa muito mais do que uma mera atualização de recurso; é um movimento estratégico em direção a um ambiente digital intrinsecamente mais saudável e sustentável. O objetivo central dessa transição não é eliminar a interação social — afinal, a necessidade de conexão é uma parte fundamental da experiência humana — mas sim reorientá-la para um modelo qualitativo, onde a profundidade e o significado das interações superem a quantidade superficial de reações. 

As redes sociais, sob pressão crescente de especialistas, usuários e até mesmo órgãos reguladores, estão sendo forçadas a inovar em suas métricas de sucesso. Isso significa priorizar o tempo de qualidade gasto em uma plataforma, a profundidade das conversas, a autenticidade das conexões e a capacidade de fomentar comunidades genuínas, em vez de um mero acúmulo de curtidas.

Essa transformação implica uma mudança fundamental no foco: o valor de uma publicação ou perfil não será mais predominantemente avaliado por “quantos” gostaram, mas sim por “quem” se envolveu de maneira significativa, “o que” gerou conversas construtivas e “como” o conteúdo contribuiu para o bem-estar, o conhecimento ou o senso de pertencimento do usuário. Não se trata de demonizar as redes sociais, reconhecendo que, como Paul Croarkin insiste, “nem todo uso de mídia social é prejudicial à saúde e muitas pessoas as usam de forma eficaz como suporte emocional e ferramenta de comunicação”. 

Contudo, o desafio primordial reside em diferenciar o uso saudável do problemático, um limite que, como Carolina Vidal aponta, é “difícil de diferenciar entre normal e patológico porque, por exemplo, os adolescentes de hoje estão saturados de atividades na internet, gastando cerca de 6 a 9 horas por dia nessas plataformas”. Essa ambiguidade torna ainda mais crucial que as plataformas ajudem a guiar os usuários para uma experiência mais intencional e menos compulsiva.

Identificando o uso problemático: sinais de alerta

Ainda que não exista um diagnóstico oficial formal para “dependência” de telefones ou redes sociais em 2026, é inegável que uma parcela significativa de pessoas exibe padrões de uso problemático ou compulsivo. Carolina Vidal, da Johns Hopkins, ressalta que o uso se torna problemático quando a pessoa perde o controle sobre ele, quando ocupa uma parte desproporcional da vida e quando causa estresse e dificuldades no trabalho, na escola ou na saúde mental.

É importante estar atento aos sinais que podem indicar que a relação com as redes sociais está se tornando prejudicial. Entre os comportamentos a serem observados, Mitch Prinstein e Paul Croarkin enumeram:

  • Tempo excessivo: Gastar uma quantidade desproporcional de tempo usando ou verificando as redes sociais, muito além do planejado.
  • Interferência na vida: O foco nas redes sociais interfere com muita frequência nas atividades cotidianas, responsabilidades ou interações presenciais.
  • Dificuldade de controle: Tentar usar as redes por curtos períodos, mas ter dificuldade em parar ou limitar o tempo de uso.
  • Desejo compulsivo: Sentir um desejo intenso e incontrolável de entrar em uma rede social, mesmo sem um motivo específico.
  • Irritabilidade: Experimentar irritabilidade, raiva ou ansiedade quando não se consegue acessar as redes sociais ou o telefone.
  • Impacto emocional negativo: Sentimentos de solidão, baixa autoestima ou raiva que são exacerbados pelo uso das redes ou pela incapacidade de usá-las.
  • Prejuízo cognitivo: Notar uma capacidade limitada de pensar profundamente, de se concentrar em tarefas complexas ou de ser criativo devido à constante distração.

Mitch Prinstein enfatiza que devemos nos perguntar: “Estamos permanecendo nas redes por mais tempo do que o esperado? Tentamos gastar menos tempo, mas temos dificuldade em parar? Dedicamos muito esforço para garantir o acesso?”. Todas essas são perguntas que podem sinalizar um uso que transcende o saudável e entra na esfera da dependência comportamental, mesmo que o uso de mídias sociais, por si só, não signifique que estamos viciados ou que seja prejudicial.

Controlando o uso: um guia prático para 2026

Em um cenário onde as redes sociais continuam a ser uma parte intrínseca de nossa vida, mas com uma clara mudança de paradigma em relação aos likes, a responsabilidade de gerenciar o impacto digital recai cada vez mais sobre o próprio usuário. Em 2026, adotar uma postura proativa e estratégias conscientes é essencial para garantir que a tecnologia sirva como uma ferramenta de empoderamento e conexão, e não como uma fonte de distração ou ansiedade. Aqui estão algumas dicas práticas e acionáveis para retomar o controle e cultivar um relacionamento mais saudável com o mundo digital:

  • Identifique o que você deseja melhorar em relação ao uso do seu telefone ou das redes sociais: O primeiro e mais crucial passo é o autoconhecimento. Dedique um tempo para refletir honestamente sobre como o uso do seu celular e das redes afeta seu humor, sua produtividade, seus relacionamentos e seu bem-estar geral. Identificar áreas específicas para mudança tornará o processo mais focado.
  • Registre por quanto tempo você usa o telefone: A maioria dos smartphones modernos oferece recursos nativos que monitoram e relatam o tempo de tela e o uso de aplicativos. Utilize essas ferramentas para ter uma visão clara e objetiva de seus hábitos. Muitas vezes, a simples consciência da quantidade de tempo gasta já é um poderoso catalisador para a mudança.
  • Estabeleça limites de tempo para usar as redes: Defina horários específicos para verificar as redes sociais e comprometa-se a aderir a eles. Você pode usar os próprios recursos de “Bem-estar Digital” (ou equivalentes) dos sistemas operacionais para bloquear aplicativos após um determinado período de uso diário, transformando a tecnologia em sua aliada.
  • Conheça os fatores que desencadeiam seu uso: Preste atenção aos momentos do dia, emoções ou situações que o levam a pegar o telefone e abrir as redes sociais. Tédio, ansiedade, estresse, solidão ou a simples inércia de um momento de espera são gatilhos comuns. Ao identificá-los, você pode substituí-los por atividades mais saudáveis e intencionais.
  • Esqueça o medo de perder algo (FOMO – Fear Of Missing Out): A crença de que você está perdendo eventos importantes, notícias ou interações sociais ao não verificar o telefone constantemente é uma das maiores armadilhas psicológicas das redes. Lembre-se de que a vida real, muitas vezes, acontece offline e que a maioria das “urgências” digitais pode esperar.
  • Escolha atividades mais saudáveis para preencher seu tempo: Substitua o tempo de tela excessivo por hobbies que você ama, exercícios físicos, leitura de livros, aprendizagem de novas habilidades, interações sociais presenciais ou qualquer atividade que comprovadamente enriqueça sua vida e traga satisfação duradoura.
  • Estabeleça áreas onde o telefone é proibido: Crie “zonas livres de tecnologia” em sua casa. O quarto na hora de dormir, a mesa de jantar durante as refeições, ou o banheiro são exemplos de locais onde o uso do celular deve ser evitado para preservar o descanso, a alimentação consciente e a higiene pessoal.
  • Pratique a higiene do sono: Evite o uso de telas (celular, tablet, computador) por pelo menos uma hora antes de dormir. A luz azul emitida por esses dispositivos pode interferir na produção natural de melatonina, o hormônio do sono, prejudicando significativamente a qualidade do seu descanso.
  • Desative as notificações desnecessárias: As notificações são projetadas especificamente para puxar sua atenção e gerar um impulso de checagem. Desativá-las permite que você decida quando verificar as redes, em vez de ser constantemente interrompido e ter seu foco fragmentado ao longo do dia.
  • Remova as permissões ou considere desinstalar aplicativos problemáticos: Avalie se você realmente precisa de todos os aplicativos de rede social em seu telefone. Para aqueles que são uma fonte constante de distração, considere remover permissões, desinstalar o aplicativo e acessá-lo apenas pelo navegador em horários específicos, ou mesmo desinstalá-lo por completo.
  • Quando estiver com amigos, encoste todos os telefones para evitar o uso durante a reunião: Em encontros sociais, proponha um “pilha de telefones” no centro da mesa. O primeiro a pegar o seu paga a conta, ou alguma brincadeira similar. Isso incentiva a conversa, o olhar nos olhos e a conexão genuína.
  • Aumente as interações pessoais fora do mundo virtual: Busque ativamente encontrar pessoas, participar de grupos com interesses em comum, praticar esportes coletivos ou qualquer outra atividade que promova a conexão humana face a face. Nada substitui a riqueza e a profundidade das relações construídas no mundo real.

A desvalorização da importância dos likes nas redes sociais não é meramente uma tendência passageira no cenário digital de 2026; é, na verdade, um sintoma eloquente de uma evolução mais profunda na nossa relação coletiva com a tecnologia. As plataformas estão sendo progressivamente forçadas a reconhecer o impacto psicológico de suas próprias métricas e a reorientar suas estratégias para promover um engajamento mais autêntico e significativamente menos superficial. 

A era de perseguir a validação numérica, muitas vezes vazia de significado, está dando lugar a um foco crescente na qualidade da interação, na construção de comunidades genuínas e, acima de tudo, no bem-estar do usuário. A chave para uma experiência digital verdadeiramente enriquecedora e equilibrada reside, agora mais do que nunca, no uso consciente e intencional, onde o valor de uma conexão não é medido por um simples clique ou número de corações, mas pela profundidade, pelo significado e pelo impacto positivo que ela adiciona à nossa vida no mundo real.

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Jornalista, Redator, Editor e Social Mídia. Com experiência na administração de redes sociais, Designer Gráfico, elaboração e gerenciamento de sites CMS com especialização em WordPress e Web Service. SEO (Otimização de motores de busca). Mais de 10 anos de experiência com integração em Comunicação e Marketing