Desigualdade no acesso limita uso de novas tecnologias
A modernização do sistema de saúde brasileiro enfrenta um obstáculo que vai além da compra de equipamentos modernos. Dados do Indicador de Alfabetismo Funcional revelam que somente 23% das pessoas com acesso à internet no país possuem altas habilidades digitais, o que dificulta o uso pleno de ferramentas médicas online.
O Brasil conta hoje com 74,9 milhões de domicílios conectados segundo a pesquisa TIC Domicílios de 2024. O acesso ainda se concentra nas classes A, B e C, deixando uma lacuna importante na capacidade da população de interpretar informações de saúde e utilizar sistemas digitais.
Sônia Maria Castral, executiva de TI e autora do estudo ISG Provider Lens, destaca a importância da inclusão. “Não adianta ter um sistema totalmente online, digital e automatizado se uma parte da população que depende dos sistemas públicos não têm acesso à internet.”
Diferenças entre setor público e privado
A infraestrutura atual apresenta contrastes significativos dependendo da região e do tipo de administração. Cerca de 92% das unidades básicas de saúde possuem acesso à rede, mas muitas áreas remotas ainda convivem com instabilidade que impede o uso de soluções digitais essenciais.
O cenário é diferente nos hospitais particulares. Levantamento da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) e da ABSS indica que 62,5% dessas instituições já utilizam inteligência artificial em diagnósticos por imagem para aumentar a precisão dos exames.
Para que a chamada Saúde 5.0 avance nos próximos cinco anos, o setor precisa resolver três desafios principais:
- Infraestrutura adequada: Garantir conexão estável além das grandes capitais;
- Capacitação contínua: Treinar profissionais e pacientes para usar as novas ferramentas;
- Inclusão digital real: Democratizar o acesso para evitar que a modernização reforce desigualdades.
Riscos da adoção imatura de tecnologia
A implementação de novidades como Inteligência Artificial generativa e dispositivos vestíveis (wearables) exige planejamento estratégico. O uso precipitado dessas tecnologias pode gerar riscos como perda de privacidade, investimentos errados e desumanização do atendimento.
Ferramentas como a Rede Nacional de Dados em Saúde e o Conecte SUS já formam uma base importante. O foco agora deixa de ser apenas a eficiência operacional para buscar um atendimento mais humano e personalizado.
A especialista reforça que a inovação não é o objetivo final. “A tecnologia é meio, não fim.”

