A ascensão da inteligência artificial e sua presença no dia a dia
A inteligência artificial (IA) consolidou sua posição como um dos grandes destaques do momento, sendo uma parte indispensável do cotidiano. Quem ignora a adoção da IA, na verdade, resiste ao futuro. Apesar das discussões sobre os efeitos do uso amplo dessa tecnologia, sua presença é inegável em vários setores. Na área da saúde, a IA melhora diagnósticos médicos. Na indústria, ela otimiza processos produtivos, monitora a qualidade e prevê falhas em máquinas. Já na educação, a IA facilita a criação de plataformas de aprendizado, conforme informações da FUSS.
O desafio de identificar textos feitos por inteligência artificial
Apesar da vasta aplicação da inteligência artificial, uma questão central emerge: como identificar se um texto foi escrito por um humano ou por uma máquina? O professor de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Adriano Machado exemplificou essa dificuldade ao usar o ChatGPT para uma carta romântica. Ele confessou ter pedido ajuda à ferramenta, e sua esposa notou algo diferente na escrita, mesmo o conteúdo sendo seu. Esse cenário reflete os desafios enfrentados por professores e profissionais para distinguir o conteúdo humano do gerado por IA.
O uso genérico da IA pode deixar sinais de que o texto veio de uma máquina, como falta de originalidade, frases previsíveis e ausência de erros de gramática, além de estruturas textuais parecidas. No entanto, o avanço dos modelos de IA, especialmente em português, e a facilidade em ajustar os resultados iniciais tornam quase impossível saber quem escreveu o texto, se foi um humano ou um robô, explica Machado à BBC News Brasil.
A engenharia de prompt e a dificuldade de detecção
O ato de aprimorar as respostas geradas pela inteligência artificial, conhecido como engenharia de prompt, dificulta a detecção de textos produzidos por chatbots. A BBC News Brasil conduziu um teste com uma ferramenta popular de detecção, utilizando três textos escritos por IA. Um rascunho inicial, gerado a partir de uma solicitação geral sobre o impacto da IA na educação, foi facilmente identificado pelo software, que apontou características como “precisão mecânica” e “tom impessoal”. Ao pedir para a IA reescrever o texto “como um humano, de forma menos robótica”, o detector indicou apenas 30% de conteúdo gerado por IA.
A professora de sociolinguística da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Raquel Freitag, afirma que é muito difícil dizer se um texto é ou não gerado por IA sem um parâmetro anterior. Ela destaca que a evolução contínua das ferramentas, com a inclusão de mais variações linguísticas, faz com que os modelos se tornem cada vez mais precisos e próximos da escrita humana. Ela lembra que a discussão não é mais sobre usar ou não usar, já que “todo mundo está usando”, e o corretor ortográfico, por exemplo, é um tipo de IA.
Travessões como um falso indicativo
Uma discussão frequente em plataformas como o LinkedIn abordou se o uso de travessões poderia ser um sinal de que um texto foi gerado por inteligência artificial. Uma representante da OpenAI, criadora do ChatGPT, reconheceu que é possível a escrita produzida pelo ChatGPT favorecer o uso de travessões, mas isso não é uma regra fixa e o resultado é bastante influenciado pelas respostas dos usuários. A professora da Faculdade de Letras da UFMG, Adriana Pagano, também percebe um uso mais frequente de travessões em textos de IA, o que pode ser um impacto do treinamento com a língua inglesa.
A simples presença de um ou outro elemento não é o que diferencia um texto gerado por IA, diz Pagano. Detectar textos de modelos de linguagem exige muita experiência com produção e correção de textos. Mesmo assim, as versões mais recentes da IA têm evoluído bastante, incorporando formas mais coloquiais. Rodrigo Nogueira, fundador da Maritaca AI, ressalta que o avanço da IA nos textos é inevitável e não deve ser visto como um problema. Ele acredita que a distinção entre o que é humano e o que é artificial vai se diluir.
O futuro da interação humana com a IA
Instituições de ensino em todo o mundo têm debatido diretrizes para integrar ferramentas de inteligência artificial por professores, funcionários e alunos. Na UFMG, a Comissão Permanente de IA, criada no ano passado, discute o uso ético da tecnologia. Entre suas recomendações, está a transparência no uso de IA em trabalhos acadêmicos e a inclusão de debates em sala de aula sobre os impactos da IA, tanto positivos quanto negativos. Além disso, a comissão aconselha não usar sistemas de IA para identificar se um cont
eúdo foi feito por humanos, devido à falta de precisão adequada e à necessidade de privacidade das informações.
A responsabilidade da educação diante da nova geração
Leonardo Tomazeli Duarte, professor da Unicamp, afirma que o desafio para os próximos anos será educar a “geração LLM” — jovens que cresceram cercados por grandes modelos de linguagem, como o ChatGPT. Ele integra o uso de IA em alguns exercícios, pedindo aos alunos que expliquem como usaram a ferramenta, a fim de entender o processo.
Duarte prevê que a IA será incorporada aos currículos de diversas áreas, assim como a estatística. Um estudo da Universidade da Pensilvânia, com mil estudantes do ensino médio, mostrou que alunos que usaram o ChatGPT para resolver exercícios de matemática tiveram desempenho melhor, mas pioraram em provas sem ajuda da IA. Isso sugere que a IA pode ser uma “muleta”, impedindo o aprendizado de conceitos essenciais. O efeito negativo desapareceu quando a IA forneceu apenas dicas, e não respostas completas.
IAs treinadas com o português brasileiro
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (2024–2028), lançado em 2024, visa desenvolver modelos de linguagem em português com dados nacionais que considerem a diversidade cultural, social e linguística do país. Rodrigo Nogueira, da Maritaca AI, aponta duas razões principais para essa aposta. A primeira é a soberania: dominar essa tecnologia para não depender de outros países. A segunda é o conhecimento contextual: uma IA treinada com base nas leis brasileiras e dados locais terá uma vantagem significativa, pois já nasce conhecendo as normas, problemas e instituições do Brasil, oferecendo um desempenho superior a modelos genéricos globais.

