Investidores punem empresas que não provam benefícios claros da ia
O número de vezes que executivos citaram o impacto da inteligência artificial em reuniões de resultados quase dobrou em relação ao trimestre anterior. Uma análise da Bloomberg News mostra que, mesmo sem uma queda real nos lucros atuais, os investidores já começaram a vender ações de qualquer empresa que pareça ameaçada pela tecnologia.
Um exemplo recente envolveu o CBRE Group, do setor imobiliário comercial. A companhia apresentou resultados financeiros melhores que o esperado na semana passada, mas seu diretor executivo admitiu que a IA pode reduzir a procura por escritórios no longo prazo. Essa declaração fez as ações da empresa caírem 20% em dois dias.
Para Roberto Scholtes, chefe de estratégia do Singular Bank, o mercado age antes de fazer perguntas.
“Os investidores decidiram colocar o ônus da prova sobre as empresas, que continuarão a ser duramente atingidas até que provem conclusivamente que estarão entre as vencedoras, portanto, não há pressa para entrar nessas águas turbulentas.”
O receio desse impacto ofusca o crescimento dos lucros. As empresas do índice S&P 500 lucraram 12% a mais no quarto trimestre em comparação ao ano anterior. Mesmo assim, o mercado permanece estagnado desde setembro, preocupado tanto com os altos gastos das grandes empresas de tecnologia quanto com as ameaças aos ganhos futuros de outros setores.
Quem ganha e quem perde no mercado
Investidores globais tentam separar quais negócios vão crescer e quais vão encolher por causa da inteligência artificial. Ações de mídia, software e recrutamento foram as primeiras afetadas. Agora, a tendência atingiu também empresas financeiras, de serviços profissionais e logística. Em contrapartida, índices na Ásia bateram recordes impulsionados por fabricantes de chips e ferramentas para IA, como a TSMC e a SK Hynix.
Uma lista de ações em risco compilada pelo UBS Group AG caiu entre 40% e 50% no último ano. Entre as empresas citadas estão:
- EUA: Salesforce, Unity e ServiceNow.
- Europa: WPP, Wolters Kluwer e Capgemini.
Jean-Edwin Rhea, gestor de fundos da Sunny Asset Management, resume a visão do mercado.
“A tendência é clara: se é digital, é vulnerável. Do ponto de vista do mercado de ações, o mundo físico oferece mais certeza a curto prazo do que o espaço digital.”
Empresas tentam se defender
Executivos têm tentado destacar os benefícios que obtêm com a IA para acalmar o mercado. O Expedia Group afirmou que usa a tecnologia para desenvolver produtos, enquanto a RELX informou que já oferece ferramentas de análise jurídica. O Zillow Group argumentou que o mercado imobiliário residencial é muito local para sofrer grandes impactos.
Apesar da cautela com as ações vulneráveis, os gastos com a construção de data centers continuam altos. Os investimentos de capital das cinco maiores empresas de tecnologia — Amazon, Alphabet, Meta, Microsoft e Oracle — aumentaram 72% em 2025. A previsão do Bank of America é que esse investimento cresça mais 63% neste ano.

