Startups trocam crescimento a qualquer custo por eficiência com ia
O antigo lema de que “foguete não tem ré” ficou para trás no setor de tecnologia. A prioridade das empresas agora é o equilíbrio financeiro e a capacidade de entregar mais resultados com menos recursos, cenário onde a inteligência artificial assumiu um papel central. O uso de modelos de linguagem como o ChatGPT permite automatizar tarefas e manter times enxutos.
Essa nova dinâmica deve criar empresas bilionárias, os chamados unicórnios, com muito menos funcionários do que se via em 2020. A fintech mexicana ARQ serve de exemplo ao levantar US$ 70 milhões com apenas 100 pessoas na equipe. Leonardo Bernini, diretor da empresa no Brasil, compara o cenário atual com o passado recente.
“Nesse mesmo patamar de rodada, as empresas que captaram nos últimos anos tinham em média mil funcionários.”
As novas regras do jogo incluem:
- Automatização de processos internos com IA generativa.
- Times reduzidos e foco em alta produtividade.
- Busca acelerada por lucro e geração de caixa.
Jovens lideram nova onda de investimentos
Os maiores cheques dos investidores migraram para o segmento de inteligência artificial. A legaltech Enter recebeu um aporte de US$ 35 milhões e atingiu valor de mercado de US$ 350 milhões em apenas dois anos de operação. Mateus Costa-Ribeiro, sócio que iniciou o negócio aos 23 anos, vê conexão direta entre a idade dos fundadores e a tecnologia.
“A inteligência artificial é algo novo, então acho natural que seja alguém jovem liderando e construindo em cima dessa tecnologia.”
O ciclo de crescimento também ficou mais rápido para quem domina essas ferramentas. A plataforma Emergent avançou três etapas de investimento em apenas sete meses. Já a OpenAI se aproximou da marca de trilhão de dólares em uma década de existência, enquanto a Nvidia saltou para US$ 5 trilhões em dois anos e meio na bolsa.
Seca de capital forçou ajustes no mercado
Para empresas que não desenvolvem IA diretamente, o dinheiro segue escasso e seletivo. O volume de investimentos de venture capital global caiu de US$ 612 bilhões em 2021 para US$ 345 bilhões em 2023. No Brasil, o tombo foi ainda maior, saindo de US$ 9 bilhões para US$ 1,5 bilhão no mesmo período. A alta dos juros globais após a pandemia encerrou a era do dinheiro barato.
Grandes companhias precisaram frear planos de expansão internacional. A Wellhub, antiga Gympass, pausou a entrada em novos países para focar em caixa e atualização tecnológica. Ricardo Guerra, CEO da empresa no Brasil, explica a estratégia adotada.
“A pausa foi superimportante, e ela nos permite escalar indefinidamente nas próximas décadas.”
A Loft também passou por reestruturações profundas, cortou mais de mil vagas e focou em produtos mais rentáveis para garantir margens melhores. O fundador Mate Pencz associa o uso da tecnologia à sobrevivência do negócio.
“A implementação de IA e a busca por eficiência andam em conjunto com a necessidade de se adaptar a um ajuste de mercado.”
Investidores oportunistas deixaram a região, mas fundos comprometidos com o longo prazo permaneceram ativos. Alex Szapiro, executivo do SoftBank, resume o período de correção vivido pelo setor.
“Na pandemia, o capital era quase de graça, e isso criava um movimento de abundância. Foi um momento embaralhado e o que vimos em seguida foi um ajuste de time e projetos, uma correção de múltiplos.”

