O mercado brasileiro de fusões e aquisições dá sinais de retomada após uma fase de cautela e custos altos. A expectativa de redução da taxa básica de juros e o retorno da liquidez colocam o crescimento das empresas novamente em destaque.
O novo ciclo de negócios se mostra mais seletivo e focado na qualidade da gestão. O sócio-diretor da Zaxo M&A Partners, Jefferson Nesello, aponta que o cenário atual cobra muito mais preparo de quem busca investidores.
“Com a circulação de liquidez impulsionada pela possível queda dos juros, o capital volta ao mercado, mas com filtros mais rigorosos. Governança corporativa, compliance ativo, previsibilidade financeira e capacidade de integração passaram a pesar tanto quanto indicadores de crescimento”
Especialistas indicam cinco movimentos principais para o setor no próximo período.
Capital estrangeiro eleva exigência
O interesse internacional pelo Brasil segue forte, com 739 operações registradas no primeiro semestre do ano passado por um levantamento da KPMG. Os setores de tecnologia e finanças ganharam destaque, e o sócio-diretor da Zaxo, Leandro Grisotto, detalha a postura dos investidores de fora.
“O capital internacional vê o Brasil como mercado estratégico, mas exige padrões globais de governança, ESG e transparência societária”
Empresas de médio porte viram alvo principal
Companhias com faturamento entre R$ 50 milhões e R$ 500 milhões concentram grande parte das negociações. Os compradores buscam negócios com liderança regional e estrutura flexível, e Nesello reforça a visão estratégica dessas vendas.
“Em muitos casos, M&A é uma forma de comprar tempo. Ao trazer um sócio ou vender parte da empresa, o empresário ganha capital e governança para crescer mais rápido”
Tecnologia e saúde lideram oportunidades
O próximo ciclo foca em áreas ligadas a tendências estruturais da economia. A lista de setores mais procurados inclui:
- Modelos de software como serviço e tecnologia
- Serviços financeiros digitais e fintechs
- Saúde e energia renovável
- Agronegócio focado em exportação
O processo exige cuidado para não virar apenas uma transação de valores, e Grisotto alerta sobre os riscos na hora de expandir as operações.
“O erro mais comum é tratar a aquisição apenas como um evento financeiro. Cultura organizacional e integração operacional determinam o sucesso da operação”
Análises rigorosas e negociações estruturadas
A circulação de mais dinheiro aumenta a necessidade de avaliações profundas antes do fechamento de acordos. O objetivo é evitar problemas como preços inflacionados ou dívidas ocultas por meio das seguintes práticas:
- Análises detalhadas das contas e documentos
- Contratos com metas de desempenho atreladas ao pagamento
- Estudo profundo das sinergias entre as empresas
A análise superficial não garante um bom negócio, e Nesello explica a postura necessária do comprador.
“Não basta olhar o potencial de mercado. O comprador precisa entender profundamente o negócio e estruturar bem o pagamento”
Integração após a compra ganha peso
O processo de união das empresas após a assinatura do contrato ganha muita relevância no mercado. A fase envolve o alinhamento de culturas e a manutenção de bons funcionários, e Grisotto destaca os riscos desse momento.
“É na integração que o valor teórico vira valor real. Se a empresa perder talentos ou clientes no processo, o retorno da aquisição pode desaparecer”
Governança define sucesso do negócio
O mercado tende a separar as empresas preparadas daquelas que ainda mantêm estruturas informais. A organização financeira e a gestão profissional se tornam requisitos básicos para atrair dinheiro novo, e Grisotto resume a transformação do setor.
“Quando a liquidez volta, o capital fica menos escasso, mas mais exigente. Governança é o que transforma uma empresa promissora em uma empresa realmente vendável”

