Geopolítica vira fator decisivo para o crescimento de empresas
O caminho para uma startup crescer mundialmente deixou de depender apenas de um bom produto e de um mercado grande. Disputas por tecnologia, controle de dados e a origem do dinheiro investido pesam agora nas decisões estratégicas. O cenário internacional instável exige que fundadores e investidores analisem riscos que vão muito além da concorrência comercial.
A geopolítica saiu de um papel secundário para integrar o centro das decisões econômicas. Marcio Sette Fortes, economista e professor do Ibmec-RJ, destaca a necessidade de cruzar dados para prever cenários. “A geopolítica deixou de ser uma área acessória e hoje é fundamental nas decisões das organizações. É preciso cruzar dados, avaliar tendências e, a partir disso, estimar cenários futuros para o mercado”.
Riscos globais e dinheiro mais difícil
Dados do Fórum Econômico Mundial apontam o confronto econômico entre nações como o principal risco global para 2026. Esse fator supera preocupações com eventos climáticos extremos ou desinformação. Metade dos entrevistados para o relatório da organização prevê um mundo turbulento nos próximos dois anos.
O ambiente econômico também sofreu mudanças estruturais antes mesmo do agravamento político. O aumento da inflação e das taxas de juros nos Estados Unidos e no Brasil encareceu o custo para conseguir investimentos. Marcelo Nakagawa, professor do Insper, explica como isso afetou a circulação de capital. “Com isso, o dinheiro que antes era muito barato e circulava de uma forma mais livre começou a ficar ilhado”.
A disputa por materiais essenciais para a tecnologia cria novas barreiras. Terras e minerais necessários para fabricar baterias e chips viraram zonas de influência disputadas. A inovação digital depende hoje de cadeias produtivas sensíveis, como semicondutores e centros de dados, onde qualquer ruptura pode travar o crescimento de uma empresa.
Concentração de investimentos nos Estados Unidos
A análise de risco geopolítico mudou o destino do dinheiro de investidores. Houve uma retração de investimentos internacionais na China e uma concentração ainda maior no mercado norte-americano. Alvaro Filpo, sócio do Fabrica Ventures, aponta que a inteligência artificial acelerou esse movimento. “A IA é extremamente capital intensiva, tanto no desenvolvimento dos modelos quanto na infraestrutura, como data centers e semicondutores. Esse é um dinheiro que está entrando e ficando nos Estados Unidos”.
Fundos que antes apostavam no mercado chinês recuaram devido à interferência estatal e insegurança nas regras do país. “Havia fundos norte-americanos e capital institucional de diversas partes do mundo alocados na China, mas isso acabou. Esse dinheiro secou”. As decisões sobre onde operar e onde instalar infraestrutura dependem agora do contexto político de cada região.

